EM SI BEMOL
Porque reler é mais importante do que ler; porque refletir é mais importante que pensar. Porque o passado há de servir pra algo no presente e/ou futuro. Por tudo isso, esse “Em Si Bemol” que “incha” e se transforma com(o) o tempo. (Como quase tudo na vida).
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eu a hora. O rádio me desperta, a cama me expulsa, banheiro, sentar-se ao computador: Escrever é uma ordem. Não importa de onde venha, a mensagem costuma chegar desarticulada: algumas palavras que formam frases, ela nunca vem completa, se desenvolve e se completa apenas à medida que é escrita. Escrever é uma ordem.
A conversa na madrugada com a amiga que também não dorme, alguns sonhos e o alerta de quem se ama: “sonhar é perigoso”.
As sensações do branco, do vermelho, do violeta e do azul-anil. Alguém se lembra do que é o anil? O anil ainda existe? Eu me lembro da mãe usando o anil no tanque com a água que íamos buscar na bica. Alguém se lembra do que é bica? (Um amigo chama aquilo de fio d’água). Havia também o poço no fundo do quintal, mas a bica, mais ao fundo, mais abaixo, no quintal vazio do vizinho sempre ausente, nunca secava. Não havia energia elétrica nem bomba d’água nem água encanada nem asfalto. Isso foi num tempo em que os caminhões pipa ainda nem levavam água para o lugar. Os vizinhos, quase todos do bairro, se abasteciam no poço lá de casa enquanto ele não se exauria (poço bom, copioso, profundidade duns trinta metros, revestido por tijolinhos de barro) porque a bica era um pouco mais longe. Eram baldes e mais baldes, uma verdadeira procissão dia afora, dia adentro. As noites eram velas e principalmente lamparinas a querosene. Alguém se lembra do querosene?
As lamparinas eram feitas usando-se latas vazias do inseticida Detefon (alguém se lembra do Detefon?). Fazia-se um furo na pequena tampa circular com uma faca ou abridor de latas por onde se inseria um retalho de pano que servia de pavio. Abastecia-se a lata com querosene e embebia-se o pavio nele, parte do pavio fora da lata, parte maior dentro dela. Acendia-se o pavio e eu me impressionava com o fato interessantíssimo do pano nunca se queimar, a chama acesa, o que comburia era o querosene. Na semi-obscuridade a avó contava histórias de arrepiar sem tarja de censura por faixa etária. Pra ajudar no efeito, ela costumava nos dar doloridos e sempre inesperados beliscões nos momentos de maior suspense. Naqueles momentos, confesso que tinha muito medo da minha avó, mas eu não perdia uma só das histórias que ela contava.
Do meio do quintal pra baixo viviam os altos eucaliptos, acima árvores frutíferas: goiabeiras (muitas), abacateiros, mangueiras, um pé de lima, um de laranja, um de figo, um imenso de amora (nunca mais vi um tão grande), um de mexerica, um de laranja de fazer doce plantado pela tia Fulana. De maneira quase baricêntrica dominava o fundo do quintal um eucalipto de porte que impressionou toda a minha infância. No seu robusto caule, em posição quase central em relação ao total de sua altura, havia uma deformidade em forma de cicatriz que chamava muito a minha atenção: Era uma verdadeira carranca natural na qual eu distinguia facilmente as feições malignas do Tranca-Rua. Ali eu via dois chifres, nariz e boca horrendos, uma expressão que, se olhada durante horas a fio parecia mesmo se modificar. Eu pensava que o Diabo vivia trancado ali naquele tronco vivo do eucalipto.
Mas esse Diabo não tinha quase nada do Diabo Católico ou Evangélico não, tinha muito mais de Exu ou de Saci Pererê. Pra mim, ele não era o puro Mal Encarnado, mas apenas um sujeito que devia ser tratado com delicadeza, respeito e muito cuidado: Um malandro melindroso que podia fazer maldades se não fosse bajulado de alguma forma. Passei muitas manhãs e tardes ali, rezando, orando, (de um modo que aprendi sem ensino e depois esqueci) clamando para que a carranca não fizesse mal algum nem a mim nem aos meus nem a todos vizinhos que diariamente por ali passavam sem percebê-la carregando os baldes de água.
As músicas vinham pelo grande rádio a pilhas. As irmãs chamavam: “Neguleu, corre, ta tocando a sua música!”.






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