NEGULEU.zip.net


Segunda-feira , 25 de Fevereiro de 2008


EM SI BEMOL

EM SI BEMOL

 

  

                                   Porque reler é mais importante do que ler; porque refletir é mais importante que pensar. Porque o passado há de servir pra algo no presente e/ou futuro. Por tudo isso, esse “Em Si Bemol” que “incha” e se transforma com(o) o tempo. (Como quase tudo na vida).

 

D

eu a hora. O rádio me desperta, a cama me expulsa, banheiro, sentar-se ao computador: Escrever é uma ordem. Não importa de onde venha, a mensagem costuma chegar desarticulada: algumas palavras que formam frases, ela nunca vem completa, se desenvolve e se completa apenas à medida que é escrita. Escrever é uma ordem.

A conversa na madrugada com a amiga que também não dorme, alguns sonhos e o alerta de quem se ama: “sonhar é perigoso”.

As sensações do branco, do vermelho, do violeta e do azul-anil. Alguém se lembra do que é o anil? O anil ainda existe? Eu me lembro da mãe usando o anil no tanque com a água que íamos buscar na bica. Alguém se lembra do que é bica? (Um amigo chama aquilo de fio d’água).  Havia também o poço no fundo do quintal, mas a bica, mais ao fundo, mais abaixo, no quintal vazio do vizinho sempre ausente, nunca secava. Não havia energia elétrica nem bomba d’água nem água encanada nem asfalto. Isso foi num tempo em que os caminhões pipa ainda nem levavam água para o lugar. Os vizinhos, quase todos do bairro, se abasteciam no poço lá de casa enquanto ele não se exauria (poço bom, copioso, profundidade duns trinta metros, revestido por tijolinhos de barro) porque a bica era um pouco mais longe. Eram baldes e mais baldes, uma verdadeira procissão dia afora, dia adentro. As noites eram velas e principalmente lamparinas a querosene. Alguém se lembra do querosene?

As lamparinas eram feitas usando-se latas vazias do inseticida Detefon (alguém se lembra do Detefon?). Fazia-se um furo na pequena tampa circular com uma faca ou abridor de latas por onde se inseria um retalho de pano que servia de pavio. Abastecia-se a lata com querosene e embebia-se o pavio nele, parte do pavio fora da lata, parte maior dentro dela. Acendia-se o pavio e eu me impressionava com o fato interessantíssimo do pano nunca se queimar, a chama acesa, o que comburia era o querosene. Na semi-obscuridade a avó contava histórias de arrepiar sem tarja de censura por faixa etária. Pra ajudar no efeito, ela costumava nos dar doloridos e sempre inesperados beliscões nos momentos de maior suspense. Naqueles momentos, confesso que tinha muito medo da minha avó, mas eu não perdia uma só das histórias que ela contava.      

Do meio do quintal pra baixo viviam os altos eucaliptos, acima árvores frutíferas: goiabeiras (muitas), abacateiros, mangueiras, um pé de lima, um de laranja, um de figo, um imenso de amora (nunca mais vi um tão grande), um de mexerica, um de laranja de fazer doce plantado pela tia Fulana. De maneira quase baricêntrica dominava o fundo do quintal um eucalipto de porte que impressionou toda a minha infância. No seu robusto caule, em posição quase central em relação ao total de sua altura, havia uma deformidade em forma de cicatriz que chamava muito a minha atenção: Era uma verdadeira carranca natural na qual eu distinguia facilmente as feições malignas do Tranca-Rua. Ali eu via dois chifres, nariz e boca horrendos, uma expressão que, se olhada durante horas a fio parecia mesmo se modificar. Eu pensava que o Diabo vivia trancado ali naquele tronco vivo do eucalipto.

Mas esse Diabo não tinha quase nada do Diabo Católico ou Evangélico não, tinha muito mais de Exu ou de Saci Pererê. Pra mim, ele não era o puro Mal Encarnado, mas apenas um sujeito que devia ser tratado com delicadeza, respeito e muito cuidado: Um malandro melindroso que podia fazer maldades se não fosse bajulado de alguma forma. Passei muitas manhãs e tardes ali, rezando, orando, (de um modo que aprendi sem ensino e depois esqueci) clamando para que a carranca não fizesse mal algum nem a mim nem aos meus nem a todos vizinhos que diariamente por ali passavam sem percebê-la carregando os baldes de água.

 

As músicas vinham pelo grande rádio a pilhas. As irmãs chamavam: “Neguleu, corre, ta tocando a sua música!”.

 

 

Escrito por Neguleu às 22h48
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Quinta-feira , 21 de Fevereiro de 2008


A VIDA É A ARTE DOS ENCONTROS.

Samba da Bênção

(Vinícius de Moraes / Baden Powell)

 

Cantado

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Falado

Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão

Cantado

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

Falado

Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba

Cantado

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Falado

Eu, por exemplo, o capitão do mato
Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a benção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas por viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceiro cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá! A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus

Cantado

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Escrito por Neguleu às 10h01
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Terça-feira , 12 de Fevereiro de 2008


SOU NEGRO

SOU NEGRO

A Dione Silva

 

SOLANO TRINDADE

 

Sou Negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh'alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs

 

Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.

 

Depois meu avô brigou como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso

 

Mesmo vovó não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou

 

Na minh'alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação...

 

 

Escrito por Neguleu às 00h17
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Óia Eu Aqui!



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, BUTANTA, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, English, Arte e cultura, Informática e Internet, Jogo de Damas
MSN - neguleu@bol.com.br

Na Prateleira