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O GARATO MARAVILHA - RUBEM FONSECA - parte I.
do livro de contos PEQUENAS CRIATURAS, de RB. http://devir-antesdosnomes.blogspot.com.br/2010/01/o-brasil-dos-recursos-estrategicos.html O GAROTO MARAVILHA (para meu irmão, pequena criatura) – RUBEM FONSECA. "Sou o melhor. Não existe problema, por mais complexo, que eu não resolva. Posso cobrar, por hora de trabalho, mais do que qualquer outro especialista. Logo que me formei, em menos de um ano fiquei conhecido como o Garoto Maravilha. Ainda hoje, já levemente grisalho, tem gente que me chama de Garoto Maravilha, mas eu não gosto. Uma vez cheguei ao escritório de uma cliente e quando ela me viu, perguntou, visivelmente divertida, "É o senhor, o Garoto Maravilha?" Era uma mulher linda, não foi fácil, tive que usar todos os meus recursos." Voce olha a menina do outro lado da sala, é linda, é o segundo dia da escova progressiva, das sobrancelhas e limpeza de pele. Ela olha para algum ponto em sua perna esquerda, levanta-a e passa as pontas dos dedos sobre uma minúscula tatuagem de anjo. Voce olha suas pernas e aumenta o sentido de seu desejo. Ela percebe, sorri e disfarça segurança. Voce olha seus lábios tremerem, suas narinas se abrirem e fecharem lentamente, os olhos se perderem num ponto além daquele instante. Ela se olha no espelho. ."Já teve quem me apelidasse de gênio. Eu podia ser um Einstein, se deixasse de pensar no que penso e tivesse tempo para ficar coçando o saco lucubrando sobre a relatividade das coisas, ou um Newton, se gostasse de meditar deitado debaixo de uma macieira. Mas ainda bem que esse apelido não pegou, ia causar ainda mais inveja aos meus colegas. Entre os renomados especialistas da minha área, mais da metade só conhece o arros-com-feijão, o que dá para enganar a maioria dos clientes, palermas que tem dificuldades para programar até mesmo o telefone celular ou um microondas. Sei que estou sendo amargo, mas estou puto comigo mesmo e desabafo para cima dos pobres de espírito, que deviam receber minha compaixão." Voce toca os cabelos da menina, não foram escovados antes de estar diante da TV. Ela se parece paralisada feito uma imagem de luz. Voce oferece sua mão para ela apoiar sua nuca. Ela pega em seu pulso para dizer que não é um ambiente apropriado. Voce não resiste à sua força e a beija. Ela olha e não tem ninguém nem nada para saber quem é. Voce a come e se vai para ela jamais esquecer quem é. "Estou doente, mas antes de falar de minha doença por causa dela deixo de atender muitos clientes que me procuram. É por isso que estou sofrendo, porque tive a revelação de que estava doente quando quis trocar meu carro velho por um novo e não tinha dinheiro, mas continuei a ser uma pessoa doente, como esses caras que não conseguem deixar de fumar ou beber. "Se voce trabalhar mais, poderia estar nadando em dinheiro", disse Cylene, a minha secretária. Mas eu não tenho tempo para trabalhar e isso está me deixando infeliz."
Voce vive nas sombras das pessoas porque não consegue deixar de pensar nela. Ela está procurando qualquer ponto onde alcança luz. Voce deixa de responder para todos por quê estar sempre assim. Ela aparece no caminho para somente ficar olhando. Voce volta a procura-la para dizer que precisa dela. Ela sorri e não diz nada. Voce se cala para tudo no canto mais ousado de qualquer quatro paredes. Ela pede que escreva seu nome a giz. Voce usa seu sangue.
"Hoje fui almoçar com o Kurt Lang, dono da Links. Eu detestava até tomar um cafezinho com um colega de profissão, mas comi a mulher do Kurt e me senti moralmente obrigado a aceitar o convite dele. Ninguém convida voce para almoçar sem querer lhe pedir alguma coisa. Kurt queria que eu solucionasse um problema que nem eles nem os bagrinhos do seu escritório conseguiam resolver. Kurt tem um monte de funcionários, dezenas de clientes, acho que a ressonância do seu nome alemão impressiona os trouxas, mas do alemão ele só tem o nome, não sabe escrever sauer-kraut, nem come." Voce se mutila. Ela desaparece. Voce quer esquecê-la. Ela lhe chupa durante as horas enfadonhas. Voce quer morrer. Ela quer casar. Voce morre. Ela casa. "Deixei o cara me vampirizar, eu me sentia em débito com ele pelo motivo já exposto. Mas o Kurt merece o que ganha, trabalha como um condenado da manhã à noite, ludibriando os trouxas. E que mal que faz em enganar aqueles que querem ser iludidos? Não é isso que fazem os médicos, os advogados, os cozinheiros, as putas, os padres, os eletricistas, os treinadores de cachorro, os macumbeiros, os consultores financeiros, os pintores de parede? Eu não podia ficar blablablando essa lista o dia inteiro. Não gosto de enganar os parvos, mas meu problema é que estou doente. E isto está me deixando infeliz." Voce quebra todos os espelhos. Ela entra no seu olhar. Voce procura um hospital. Ela lambe seus olhos e sara. "Depois do almoço, Kurt me deu uma carona no Mercedes novo dele. Entrei no meu escritório disposto a dizer à minha secretária que ia atender a todos os clientes que telefonassem e que o nosso relacionamento ia mudar." Voce quer pensar. Ela corre sobre seu corpo. Voce se irrita. Ela se excita. Voce bate. Ela agarra seu pau para se salvar do mundo. Voce quer desistir. Ela grita de gozo. ""Foi tudo bem no almoço, querido?" "Não quero mais que me chame assim. De agora em diante quero ter com voce uma relação formal." "Não estou entendendo." "Acabar com as intimidades." "O que foi que eu fiz?" "Voce não fez nada. Eu estou doente." "Mas nós sempre usamos camisinha." "Não é uma doença contagiosa. Ou talvez seja, não sei." "Já foi a um médico, meu amor?" "Ainda não. Mas eu vou. Não quero que voce me chame de meu amor." "Eu sei que não sou o seu amor, que voce tem outras, mas não me incomodo." "Cylene, sinto muito, mas voce não pode mais trabalhar comigo." "Voce vai me mandar embora?" "Estou com meu coração doendo, mas tenho que fazer isso." "Não me manda embora, por favor." "Vou arranjar um emprego melhor para voce." "Não quero outro emprego, quero trabalhar aqui." "Sinto muito." "Voce precisa de mim." "Eu estou doente. Não preciso de ninguém." "Mas eu preciso de voce, não me mande embora." "Vá para sua sala, por favor, odeio ver mulher chorando." Voce tampa os ouvidos com as mãos. Ela não pára. Voce arranca seus cabelos. Ela morde seus mamilos. Voce queima, incendeia a casa, explode o planeta. Ela reaparece e sopra em seu ouvido a paz. Voce chora. Ela faz café depois de ir na padaria. Voce se sente morto. Ela beija até irritar. "Cylene saiu correndo. "Voce vai se arrepender." Elas sempre dizem isso, ou coisa piores." Voce se irrita. Ela desaparece. Voce agradece a Deus. Ela reaparece. Voce endurece. Ela dá uma festa. "Telefonei para o Kurt. "Kurt, voce falou no almoço que estava procurando uma secretária. Eu tenho a pessoa perfeita para voce. Entende mais do nosso negócio que qualquer dos bagrinhos que voce tem aí. É a minha própria secretária." "A sua secretária? E voce quer se livrar dela por quê?" "Não posso pagar o que ela quer." "Garoto, voce é o maior e está com dificuldades? Está abusando da substância? Foi o que ferrou o Manfredo, ele ficou um caco, totalmente na merda." "Não é nada disso. Eu estou doente. Não consigo trabalhar." "O que voce tem? Câncer?" "Não é câncer." Voce conversa. Ela dissimula. Voce quer dançar e a convida. Ela aceita e diz que é o homem mais canalha do mundo, para suas amigas babarem. Voce adora a música. Ela não sabe. Voce desaparece na luz. Ela enfia a língua no ouvido. Voce se irrita. Ela beija. Voce pára. Ela trás uma bebida. "É stress? Eu sei o que é isso." "É stress dos piores, estou muito mal", confirmei, para o Kurt deixar de fazer perguntas. Senti que ele ficava feliz por saber que eu estava fodido. O mundo é assim. "Como é, quer contratar a Cylene ou não? Sei de mais gente que se interessaria." "E quanto ela quer?" Multipliquei o salário que eu pagava a ela por três. "A Cylene vale muito mais", acrescentei." Voce não se embriaga. Ela decola. "Quando é que ela pode começar? Preciso imediatamente. A gente só vê a importância de uma boa secretária quando ela nos deixa. A desgraçada casou e o marido é um daqueles trogloditas que não querem que a mulher trabalhe fora." Voce enfia com raiva. Ela enfia o dedo na garganta. Voce liga o computador. Ela apaga. Voce se humilha para estranhas e beija os pés de vadias famosas e sábias estúpidas. Ela sonha nas asas da Panair. Voce quer o Brasil. Ela lhe dá uma ilha. Voce enxerga tudo. Ela se entrega a sacrifícios na fogueira. Voce pensa em salvá-la. Ela grita de gozo. "Na segunda feira a Cylene se apresenta a voce. Estou lhe fazendo um favor. Vai ficar me devendo." Voce é a vida dela. Ela é a sua vida. Voce sonha. Ela é uma gata. Voce é um urso preguiçoso. Ela é mulher. Voce é homem. Ela morde. Voce chora. Ela é uma abelha. "Já anotei, Garoto." Lembrei que tinha deixado um furo. "Kurt, na carteira profissional dela está um salário menor. Eu pago a diferença por fora." "Aqui nós não fazemos esse tipo de coisa, é lesivo à previdência social e, além de ilegal, desculpe dizer, fere a boa ética", disse Kurt, satisfeito por poder me dar essa porrada. Será que ele sabia que andei comendo a mulher dele?" Ela trás o mel. Voce se mela. Ela enche a bola. Voce fura. Ela é justa. Voce assusta.
Escrito por Neguleu às 16h56
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O GAROTO MARAVILHA - RUBEM FONSECA - parte II .
"Foi duro convencer Cylene. A infeliz gostava de mim, as mulheres são seres estranhos, adoram patifes que são bondosos e engraçados, uma coisa que eu era, além de muito doente. O que a convenceu foi eu dizer que deixando de ser minha secretária o problema desapareceria e a gente ia poder continuar se vendo, o que eu não pretendia fazer mais. Também influiu o alto salário que ela ia ganhar com o Kurt, mais a indenização que lhe paguei. Dinheiro é dinheiro, só quem não gosta de dinheiro sou eu. Faz parte da doença." Ela é voce. Voce é ela. Voce não conversa com ninguém. Ela fala pelos cutuvelos. Ela lixa a unha sobre voce. Voce ronca. Ela lê revistas. Voce compra. Ela é. Voce não. "Olha, voce deve chamar o cara de doutor Kurt, ouviu? Ele gosta de ser chamado de doutor. É um bestalhão, mas é um bom sujeito, é só caprichar da mímica, doutor Kurt pra cá, doutor Kurt pra lá, e fazer o seu trabalho como voce sabe fazer. Não se esqueça do que eu falei a ele sobre a carteira profissional, o pagamento por fora." Voce não quer mais transar. Ela dá de ombros. Voce arruma seu espaço. Ela passa um pano nua. Voce perde manias. Ela tinge os pentelhos. Voce tem enxaqueca. "Entreguei a Cylene uma carta de recomendação, onde só faltava dizer que ela era uma segunda madame Curie. Cylene ia dar certo no segundo emprego, ela era mesmo do primeiro time." Voce se masturba. Ela vai ao dentista. Voce cozinha a sua comida. Ela faz amigos. Voce se mata. Ela escreve um livro para ganhar dinheiro. Voce é eterno. Ela ri. "No dia seguinte fui ao médico, um psiquiatra amigo meu. Ele ouviu a minha história. "Essa doença está acabando comigo, está me arruinando", eu disse. "Não conheço remédio para isso", ele disse. "Aliás, nenhum laboratório está interessado em fazer um remédio desses. Não ia vender." "Já tomei tudo que é tranquilizante. Aqueles que alertam na bula que um dos efeitos colaterais é diminuir a libido." "Isso é coisa de departamento jurídico dos laboratórios. É para o caso de algum espertinho impotente, instruido por um advogado safado, acionar o laboratório. O advogado do laboratório, causídico do mesmo naipe, alega no tribunal que a bula alertava para esse possível efeito, ou seja, o pilantra tomou o remédio sabendo disso. A gente precisa ter advogados para se defender de advogados. Agora a coisa é assim. Voce conhece aquela piada do advogado que foi para o céu?" Quer dizer que minha doença não tem remédio?" "Pelo que me lembro, voce já era assim no ginásio. E voce está arruinando por quê? Voce disse que não dá dinheiro para as mulheres, que elas não custam nada." Ela ri e faz pipocas para assistir Felline porque afirma que nunca vai entender. Voce não explica. Ela troca e coloca Suxa de Araque. Voce se mata. Ela se inflama. "Eu não posso chegar para uma mulher e dizer sem mais nem menos, vamos para a cama. Elas vão sempre, mas é preciso táticas, estratégias, uma mão-de-obra danada. Fico sem tempo para fazer o meu trabalho. E se não trabalho, não ganho dinheiro." Voce ri e troca o dvd. Ela xinga e atira pipocas. Voce quer champanhe. Ela arranca peça por peça, desmonta a máquina, derrete a pele, joga os olhos em voce. "Não dá para conciliar? Equilibrar as coisas?" "Como? Eu quero foder todas as mulheres que encontro." "O mundo está cheio de mulheres feias." "Mas eu não as vejo, elas não aparecem para mim, as feias." "E voce acredita que é politicamente incorreto querer comer todas as mulheres?" "Eu li que isso é doença. Não existe uma doença chamada satiríase?" Voce tira os sapatos. Ela desgruda suas roupas, livros e fotos de expressões ímpares na internet. Voce abre os braços. Ela pula. Voce é íngrime. Ela não sabe voar. "Toda excitação sexual tem alguma coisa de mórbido. No mundo de hoje os homens estão cada vez com menos tesão, tem que tomar pílulas para isso, e os que sentem tesão são considerados doentes. Essa é mais uma invenção das feministas americanas. Certamente voce andou lendo bobagens num desses livros produzidos na terra do Tio Sam. Viva a sua vida, mas não se esqueça de que hipocrisia e o sofisma são padrões socioculturais aceitos nos dias de hoje." "Devo então fingir que sou o que não sou?" "Eu não disse isso." "O que foi que voce disse?" "Por enquanto, nada. Foi uma frase de efeito." Voce demora pular. Ela escala e pergunta se ainda ama. Voce empurra. Ela volta e quer saber a verdade. Voce empurra. Ela insiste. Voce se irrita. "Puta merda, eu vim ao psiquiatra errado. Ou o problema é sermos velhos amigos?" "Talvez. Mas o seu caso é complicado. Não devia ser, e não é, mas voce mesmo o complicou." "Então não há nada a fazer? Só me resta ouvir um tango argentino, como o sujeito do pneumotórax do Manuel Bandeira?" "Bons tempos aqueles, do colégio. Éramos inocentes, líamos os poetas. Engraçado, engraçado voce desencavar esse troço." Voce quase cai. Ela segura. Voce espia pela janela. Ela fecha os olhos. Voce vê. Ela finge. Voce quer morrer junto. Ela implora. Voce morreria. Ela está morrendo. Voce acelera. Ela está morrendo. Voce acelera, desespera e urra. Ela grita que vai morrer. Ela morre. Voce morre. Ela sorri maliciosamente. Voce chora. "Quer dizer que estou ferrado?" "Procura um psicanalista. Às vezes funciona." "Não vou procurar porra de psicanalista nenhum." "Ou então o DASA - Departamento de Amor e Sexo Anônimos. Uma espécie de AA para sátiros e ninfos. Realizam reuniôes diariamente, em vários locais da cidade. Às vezes..." Cortei a frase dele no meio. "Comigo não funciona. Detesto confissões privadas e mais ainda as públicas." Na saída dei o meu cartão para a recepcionista, uma mulher linda. "Liga para mim, tenho a mais fascinante coleção de asas de borboleta do mundo." Ela sorriu e botou o cartão no bolso do uniforme branco que vestia. Estou puto comigo mesmo. Não sei o que vou fazer. Vou morrer doente, dirigindo um carro velho." (Rubem Fonseca - Pequenas Criaturas Companhia Das Letras)
Escrito por Neguleu às 16h09
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O MELHOR FILME QUE JÁ ASSISTI.
http://cinerelax.blogspot.com.br/2004/08/crtica-uma-simples-formalidade.html  Crítica: Uma Simples Formalidade "Memória em fragmentos numa narrativa surpreendente" Por Carina Rabelo Um bosque silencioso e taciturno. Uma arma voltada para a câmera. Um tiro. Violinos nervosos embalam a cena. Um homem corre, louco e ofegante pelo bosque que, repentinamente, torna-se palco de uma tempestade inexplicável. Suspiros e desorientação. O homem encontra-se perdido... mas há uma luz no fim do bosque. São policiais. O desorientado sujeito não possui documentos, então, é encaminhado para a delegacia - um estranho local distante e misterioso, semelhante a um castelo abandonado e sombrio. Nada há, apenas policiais e um delegado. Nesse cenário de obscuridade, Giuseppe Tornatore apresenta ‘Uma Simples Formalidade’, estrelado por Gérard Depardieu e Roman Polanski, uma história policial que rompe com a expectativa tradicional de uma narrativa de suspense. Gérard representa Onoff, um consagrado escritor, que agonizado por motivos desconhecidos, não consegue explicar ao delegado (Roman Polanki) o que faz sozinho num bosque, no meio de um temporal e sem documentos. O delegado lhe faz perguntas simples como o que ele havia feito durante aquele dia, mas Onoff não consegue elaborar uma resposta coerente, pois sua memória não funciona de forma linear. Há flashes, lapsos, exceto uma organização congruente dos fatos. Para complicar a sua situação, coincidentemente, houve um assassinato naquela mesma noite. O que seria uma simples formalidade policial torna-se um complexo interrogatório, no qual o delegado se encontra num constante duelo pessoal entre a sua profunda e inabalável admiração pelo artista e pela possibilidade do mesmo ser um cínico e perigoso assassino. Tornatore nos surpreende ao longo dos 107 minutos da trama, desvelando um texto que nos coloca diante da constante dúvida sobre a clareza dos fatos. Há um crime, no qual não se conhece a vítima, mas já existe um suspeito, um homem transtornado, confuso e contraditório em tudo o que diz. O espectador é levado a assumir diversos posicionamentos na narrativa. Onoff é mesmo o assassino? Quem é a vítima? Há uma conspiração na delegacia? Seria Onoff um bode expiatório? Assim, o enredo se desenrola num espaço fixo – um pequena e decrépita sala. São 67 minutos numa espaço encurralado por ratos, goteiras, vinhos e incertezas. A trilha acompanha o suspense do enredo, numa sonoplastia estridente e ameaçadora. As fotografias e as pequenas lembranças O sentimento de admiração do delegado pelo escritor e o clima de compaixão e aflição dos policiais durante o interrogatório se mesclam com a desconfiança da autoria do ‘suposto’ crime. O pensamento de Onoff, desorganizado e incoerente, passa a estruturar-se num ritmo linear, a medida que vai lembrando aos poucos das personagens que compõem a sua história. Embebido pelas lembranças entrecortadas, o escritor passa a desconfiar de si próprio, ao recordar de cenas inexplicáveis como discussões com a amante, papéis picotados sobre a escrivaninha e uma arma de fogo... que foi posteriormente localizada no local do ‘crime’. As fotos permitem que Onoff recomponha um referencial sobre a sua existência. Num roteiro extremamente bem elaborado, o apreciador encontra-se tão perdido quanto o próprio Onoff e compartilha do dilema sofrido pelo delegado. As imagens-clipes e a câmera em travelling nos proporciona um universo de conflitos numa narrativa extensa e complexa, que promete abalar os alicerces do real e do verossímil, afinal, tudo é inacreditável naquela delegacia, uma masmorra de descobertas que suplantam as fábulas e fantasias metafísicas. POSTED BY CARINA RABELO AT 4:35 PM 2 COMMENTS: Alfredo Werney said...
texto coerente e bem escrito.parbéns. o que mais me chamou atenção no filme foi a trilha sonora de morricone.os sons do filmes funcionam na plástica das cenas, nos transmitindo um universo de sensações subliminares.Ampliam o poder simbólico das imagens. Lembremos do constante som de chuva que acompanha todo filme. o som do filme, na verdade é o seu cenário. belíssima película. 20 DE NOVEMBRO DE 2007 13:06 Ana Clara Facin said...
Um dos mais interessantes filmes de suspense já vistos. Trabalho impecável, como sempre, de Gérard Depardieux. Direção e trilha sonora inesquecíveis. 23 DE JANEIRO DE 2012 17:3
Escrito por Neguleu às 00h25
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EU NADA ENTENDO DA QUESTÃO SOCIAL - Mario Quintana.
(Mario Quintana 1906-1994 in A Rua dos Cataventos) Eu nada entendo da questão social. Eu faço parte dela, simplesmente... E sei apenas do meu próprio mal, Que não é bem o mal de toda a gente, Nem é deste Planeta... Por sinal Que o mundo se lhe mostra indiferente! E o meu anjo da Guarda, ele somente, É quem lê os meus versos afinal... E enquanto o mundo em torno se esbarronda, Vivo regendo estranhas contradanças No meu vago País de Trebizonda... Entre os Loucos, os Mortos e as Crianças, É lá que eu canto, numa eterna ronda, Nossos comuns desejos e esperanças!... A Rua dos Cataventos - VI
Na minha rua há um menininho doente. Enquanto os outros partem para a escola, Junto à janela, sonhadoramente, Ele ouve o sapateiro bater sola.
Ouve também o carpinteiro, em frente, Que uma canção napolitana engrola. E pouco a pouco, gradativamente, O sofrimento que ele tem se evola. . .
Mas nesta rua há um operário triste: Não canta nada na manhã sonora E o menino nem sonha que ele existe.
Ele trabalha silenciosamente. . . E está compondo este soneto agora, Pra alminha boa do menino doente. . .
Mario Quintana
Escrito por Neguleu às 13h04
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Refém da Solidão
(Paulo Cesar Pinheiro) Quem da solidão fez seu bem Vai terminar seu refém E a vida pára também Não vai nem vem Vira uma certa paz Que não faz nem desfaz Tornando as coisas banais E o ser humano incapaz de prosseguir Sem ter pra onde ir Infelizmente eu nada fiz Não fui feliz nem infeliz Eu fui somente um aprendiz Daquilo que eu não quis Aprendiz de morrer Mas pra aprender a morrer Foi necessário viver E eu vivi Mas nunca descobri Se essa vida existe Ou essa gente é que insiste Em dizer que é triste ou que é feliz Vendo a vida passar E essa vida é uma atriz Que corta o bem na raiz E faz do mal cicatriz Vai ver até que essa vida é morte E a morte é A vida que se quer
Escrito por Neguleu às 19h43
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SOLVITUR AMBULANDO.
Em uma palavra, a desmoralização era geral. Clero, nobreza e povo estavam todos pervertidos. JOAQUIM MANUEL DE MACEDO, Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro (1862-3) Trecho de A ARTE DE ANDAR NAS RUAS DO RIO DE JANEIRO (Rubem Fonseca) Augusto, o andarilho, cujo nome verdadeiro é Epifânio, mora num sobrado em cima de uma chapelaria feminina, na rua Sete de Setembro, no centro da cidade, e anda nas ruas o dia inteiro e parte da noite. Acredita que ao caminhar pensa melhor, encontra soluções para os problemas; solvitur ambulando, diz para seus botões. No tempo em que trabalhava na companhia de águas e esgotos ele pensou em abandonar tudo para viver de escrever. Mas João, um amigo que havia publicado um livro de poesia e outro de contos e estava escrevendo um romance de seiscentas páginas, lhe disse que o verdadeiro escritor não devia viver do que escrevia, era obsceno, não se podia servir à arte e a Mammon ao mesmo tempo, portanto era melhor que Epifânio ganhasse o pão de cada dia na companhia de águas e esgotos, e escrevesse à noite. Seu amigo era casado com uma mulher que sofria dos rins, pai de um filho asmático e hospedeiro de uma sogra débil mental e mesmo assim cumpria suas obrigações para com a literatura. Augusto voltava para casa e não conseguia se livrar dos problemas da companhia de águas e esgotos; uma cidade grande gasta muita água e produz muito excremento. João dizia que havia um ônus a pagar pelo ideal artístico, pobreza, embriaguez, loucura, escárnio dos tolos, agressão dos invejosos, incompreensão dos amigos, solidão, fracasso. E provou que tinha razão morrendo de uma doença causada pelo cansaço e pela tristeza, antes de acabar seu romance de seiscentas páginas. Que a viúva jogou no lixo, junto com outros papéis velhos. O fracasso de João não tirou a coragem de Epifânio. Ao ganhar um prêmio numa das muitas loterias da cidade, pediu demissão da companhia de águas e esgotos para dedicar-se ao trabalho de escrever, e adotou o nome de Augusto. Agora ele é escritor e andarilho. Assim, quando não está escrevendo - ou ensinando as putas a ler -, ele caminha pelas ruas. Dia e noite, anda nas ruas do Rio de Janeiro. Este conto está no livro Romance negro e outras histórias(Rubem Fonseca).
Escrito por Neguleu às 18h04
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BUKA FAZENDO ANIVERSÁRIO.
Convém dar uma clicada no link donde copiei isso. Fonte: http://dan-poucodetudo.blogspot.com/2011/03/charles-bukowski.html Poema nos meus 43 anos
Terminar sozinho no túmulo de um quarto sem cigarros nem bebida — careca como uma lâmpada, barrigudo, grisalho, e feliz por ter um quarto.
… de manhã eles estão lá fora ganhando dinheiro: juízes, carpinteiros, encanadores, médicos, jornaleiros, guardas, barbeiros, lavadores de carro, dentistas, floristas, garçonetes, cozinheiros, motoristas de táxi…
e você se vira para o lado esquerdo pra pegar o sol nas costas e não direto nos olhos.
há um pássaro azul no meu coração
há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado duro para ele, e digo, fica aí dentro, não vou deixar ninguém ver-te. há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu despejo whisky para cima dele e inalo fumo de cigarros e as putas e os empregados de bar e os funcionários da mercearia nunca saberão que ele se encontra lá dentro. há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado duro para ele, e digo, fica escondido, queres arruinar-me? queres foder-me o meu trabalho? queres arruinar as minhas vendas de livros na Europa? há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado esperto, só o deixo sair à noite por vezes quando todos estão a dormir. digo-lhe, eu sei que estás aí, por isso não estejas triste. depois, coloco-o de volta, mas ele canta um pouco lá dentro, não o deixei morrer de todo e dormimos juntos assim com o nosso pacto secreto e é bom o suficiente para fazer um homem chorar, mas eu não choro, e tu?
Escrito por Neguleu às 20h07
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Frase inspiradora
Frase inspiradora Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim. (Chico Xavier). Ao amigo Izalto Carijo, espírito, respeitosamente. À Dona Margarida, espírito também, carinhosamente.
Escrito por Neguleu às 00h37
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SÓ PRA DIZER QUE (AINDA) NÃO MORRI.
É fato. E ainda penso em publicar aqui coisas para quem não se desesperançou de acessar esse blog procurando coisas. O tempo é minha desculpa de não ter tempo. Só pra dizer, que NÃO, eu não perdi a senha pra acessar esse bloguito. Também não tou me achando um cara mais bonito. Nem mais nem menos esquisito. Nem mito. É que eu tava andando por aí e por enquanto a enchente não me levou. Vejam que eu até virei "amigo" do Barão. E por essa (dentre tantas) eu nunca que esperava. Continuo sim, massagista de prostitutas e me lembro de vários dos contos-crônicas de Rubem Fonseca em que o protagonista empenha-se em ensinar as tais garotas de programa a ler. Levei um livro no puteiro: O FALECIDO MATHIA PASCAL (de Luigi Pirandelo), uma moça (maldita a hora em que me deitei, antes disso, noutro dia, com ela!) folheando-o me perguntou se eu "era espírito". Não, eu não era espírito e continuo nao sendo. Decerto que estou mais proprimente para esporro. Aquela antiga idéia de terminar uma faculdade (qualquer uma) deu as caras por aqui. Travestida de Educação à Distância, sentou primeiro em minha cama e logo, tomando confiança repousou o gostoso traseiro no meu colo não desprezando a intimidade singular de fazer-me cafunés nos cabelos. Ao contrário de muitas dessas moças, não se surpreendeu nadica da rigidez do embaraço, parece mesmo que me conhecia há muito tempo. Por enquanto mandei-a passear e ela foi sem mágoa prevendo e preparando uma revanche. Me consulto pra saber se essas são idéias típicas de início de ano. No momento, talvez a idéia seja apenas pragmática, uma vez que o tal "deproma" acresceria uns percentuais no meu salário. Mas é que eu estava por aí pensando. Ouvindo os cds de Kiko Dinucci e de Douglas Germano.
Escrito por Neguleu às 13h14
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Das Vantagens de ser Bobo - Clarice Lispector
DAS VANTANGENS DE SER BOBO - CLARICE LISPECTOR. 
O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir, tocar no mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo, estou pensando”. Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo parece nunca ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski. Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era que o aparelho estava tão estragado que o concerto seria caríssimo: mais vale comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e, portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?" Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação, os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás, não se importam que saibam que eles sabem. Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
Escrito por Neguleu às 20h38
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FELIZ 2010! TAMBÉM DURANTE A RESSACA.
FELIZ 2010! TAMBÉM DURANTE A RESSACA. Ao meu grande amigo Izalto Carijo, um cara durão de coração mole! PS Preambular: Parece-me que, justamente quando nada mais importa, alguma coisa parece, finalmente, começar a fazer sentido. Uma sede que não é de água (nem de cerveja) e se processa o dia Primeiro que, aliás, não necessariamente é o primeiro dia. Eu tento apagar os sinais da festa da véspera e enxugar de minha vista as latinhas de cerveja vazias, mas na sala, a festa se prolonga na presença dos parentes, eles são felizes. Eu espero com gravidade e certa tenacidade a hora do regresso do "dia normal" pra poder ritualisticamente prosseguir tirando melecas do nariz. Li algo sobre o tirar melecas do nariz no último livro de Rubem Fonseca, "O Seminarista" presente dum amigo que me conhece mais do que eu. Fiquei emocionado com a referência. Agora são 17h00 e eu tento apagar os farrapos da festa, mas na sala, a festa continua com a presença dos parentes tomando latinhas de cerveja e papeando sobre variegados assuntos. É, pois acho que o dia primeiro, o primeiro dia vai ficar pra Segunda. Beijos, abraços, feliz 2010 para os felizes. *** Segundo dia! Que beleza, que alegria! Apago com gáudio o primeiro dia, que agora é que a coisa realmente começa. Entra pela janela um ar rusticamente úmido, uma vontade de descer pro boteco pé sujo pra escutar mentiras e piadas dos colegas bebaça! vou logo tomar uma ducha, dar um barro, não necessariamente nessa ordem. Ah, Jesus, era desse tipo de alegria que nos falava? E eu aqui sem entender porra nenhuma, também tu falavas em aramaico meu chapa. passa a garrafa, frita uns espetos, tem torresmo hoje, precisa esquentar não. Marcelão o homi da Canabis se equilibra do alto de sua eterna barba por fazer. seria permanente? vou encomendar. No rádio, quem? ele. claro, mas não na voz dele, mas na do João, o caro Aldir Blanc: feliz da vida (e isso é raro - toca de tatu, rabada de peru,... barriga d água) e o esquidum: toma-lá-dá-cá do samba, do samba, do samba. Agora podres projetos, dejetos, tocar pra central, a zona misteriosa onde neurônios debatem ininterruptamente. Mais um gole, diarréia, verborragia, é bom os policia não aparecer nessa hora. vou urinar no copo e oferecer ao sargento. sarnento? sarmento? por dentro? Trás uma taça Negra Anastácia, comemoremos agora o nascimento da segunda noite. açoite, porrada, que cara engraçada, parece que olhando pra ti me vejo no espelho, negro é bom que nunca fica vermelho. mais uma garrafa, me manda um poema pelo telegrama que eu pago por cada palavra, lavra, pedaçãos dos meus sangues coagulados escorrem da grota greta preta boca. era torresmo? a esmo? com queijo parmesão, coração. Lembrei-me daquela mina que eu supunha minha sina, um poema pra ela? Donde tiverem os falecidos me respondam nos ouvidos donde vêm as emoções? "O Importante é que a nossa emoção sobreviva", mas até quando? Estou à procura do enfarto, já farto, de fato. Vou lá em casa buscar o crachá pra enfiar no cu do Sargento! Nojento? Não vai dar pé. preciso do troco pra pegar o Paris-Pirajá que passa aqui na esquina. menina. interessante. deve estar sem que fazer. quando bebo é que facilita falar com elas, mas hoje não, porque a inspiração ta azeda. Num grupo de dois tem haver um que ceda! "Bendito Seja, Bendito Seja, o alemão que inventou a cerveja!". Na verdade ela não foi inventada pelos alemães, soube por todas as indiretas vias de que ela provavelmente foi a invenção pré-histórica que fixou o antigo homem, ate então nômade, a terra. Faz todo o sentido, em todos os sentidos, princípio da agricultura. O Brasil é o quinto maior consumidor mundial. Mas ainda acho que é pena o meu nada seletivo estômago não conseguir experimentar também a cachaça, bebida nossa, brazuca. Não nas doses que eu gostaria. Dizem que a vodca não dá ressaca, virge, mas deve ser apenas quando tomada sozinha, na mistura já provei o contrario, mas o vômito fica com um gosto menos horrível, cheiroso. pode crer. Jesus, se eu morresse amanha iria contente, já fiz a minha parte. E ademais daqui a cinco bilhões de anos o nosso Sol vai aos poucos se transformar numa estrela anã, e se o homem não tiver zarpado do sistema solar, nada do que fazemos hoje vai ter a menor importância mesmo. pense nisso. Vamos, pois, com parcimônia desmedida, a esse boteco, pois que na Segunda é dia de branco, e de preto, e de índio, de alemão, italiano, chinês e russo, de japonês. de brasileiro no batente que precede o Carnaval, em breve.
Escrito por Neguleu às 18h52
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Um Cadim de BUKOWSKI
Olhar crítico e original da sociedade Textos Autobiográficos mostra como a vida influenciava a obra de Bukowski Por Ubiratan Brasil A vida, modo de usar - se já não fosse o título de um fabuloso livro do francês Georges Perec, esse se encaixaria bem em Textos Biográficos, seleção de reminiscências de Charles Bukowski (1920-1994) que a editora L&PM acaba de lançar (tradução de Pedro Gonzaga, 479 páginas, R$ 66). Trata-se de uma série de trechos coletados de uma vasta obra deixada pelo americano, entre romances, contos, poemas e textos pessoais. Como poucos, Bukowski baseou sua literatura intimamente no próprio cotidiano, descrevendo uma vida ordinária. Mas, como acreditava que o assunto não interessava a quase ninguém, ele assumiu a função de outsider que lhe permitiu observar a sociedade com um olhar crítico e original. "Não há máscaras em sua escrita", observou a cantora alemã Ute Lemper ao Estado no início do ano, quando se apresentou em São Paulo. Fascinada pelas palavras sujas na forma mas límpidas na intenção, Ute vem musicando poemas de Bukowski, material que vai compor o disco que pretende lançar no final de 2010. "Em alguns momentos, ele me faz lembrar Bertolt Brecht, que também jamais pretendeu ser considerado um poeta. Ambos buscavam apenas retratar as dificuldades de se viver em sociedade." A admiração talvez se justifique por algumas coincidências na trajetória de Ute e Bukowski - ambos nasceram na Alemanha e acabaram trocando o país pelos Estados Unidos. Com isso, sentiram na pele a necessidade de criar vínculos com outra sociedade. As semelhanças, no entanto, param por aí. Enquanto Ute se transformou em uma cantora de sucesso com um repertório baseado em Brecht e Kurt Weil, Bukowski percorreu os subterrâneos, trabalhando nos correios até conseguir a independência como escritor somente depois dos 49 anos. Nascido Heinrich Karl Bukowski na cidade alemã de Andernach, em 1920, ele se mudou para os Estados Unidos com a família três anos depois, fugindo da crise econômica que assolava a Alemanha, derrotada na 1ª Guerra Mundial. São esses momentos que inspiram os primeiros textos selecionados do livro, que mostram os sofrimentos do pequeno Bukowski, atormentado na escola por sua tendência à solidão (fruto da reclusão imposta pela família) e pelo sotaque alemão. "Foi no jardim de infância que conheci as primeiras crianças da minha idade. Elas pareciam muito estranhas, sorriam e conversavam e pareciam felizes." Ainda jovem, Bukowski sentiu uma verdadeira epifania ao experimentar uma bebida alcoólica pela primeira vez. "Isso vai me ajudar ao longo da vida", escreveu ele, anos depois, confirmando não só a dependência etílica mas também a importância que o álcool teria em sua produção artística. Ela liberava caminhos, alimentava ambições e ainda o distinguia dos demais. "Realizei várias incursões educativas pelos cortiços da cidade a fim de me preparar para o meu futuro", escreveu ele em Misto Quente, lançado em 1982. "Não gostei nada do que vi por lá. Aqueles homens e aquelas mulheres não tinham qualquer tipo especial de ousadia e brilho." Não era essa a vida que o beberrão, o empregado da agência de correios (onde colava selos) queria. Assim, mais que criar um mundo ficcional para seus personagens, Bukowski buscava uma rotina superlativa para si mesmo. Uma trajetória, enfim, que inspirasse seu trabalho como autor. E, ao escrever realística e sucintamente, sempre com humor, sobre a classe trabalhadora da América, Bukowski valorizou um objeto subestimado na cultura americana. Não tinha pretensões políticas, mesmo tendo flertado com o movimento nazista. Não era de esquerda ou de direita - Bukowski era mais um anarquista, na acepção da palavra que se encaixaria no comediante Groucho Marx, aliás, mulherengo como ele. Características que não permitem encaixá-lo na Geração Beat, formada em sua maioria por efeminados rapazes de classe média que viviam em grupo, ao contrário de sua opção pelo trabalho-solo. É o que revela o quebra-cabeça montado em Textos Biográficos: um autor marcado por uma ânsia pela dignidade e pela busca da verdade e da liberdade. (publicado no Jornal “O Estado de São Paulo” na data de 26 de Setembro de 2009, Sábado. Excerto gentilmente presenteado a Neguleu pelo amigo Izalto Carijo, assinante de tal jornal).
Escrito por Neguleu às 18h20
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PEITULÂNCIA.
Para Helena Hutz.
...ali no buso lotado e eu em pé reparei na peitulância da moça de decote generosíssimo e sutiã muito interessante, enigmático e pensei com ou sem os meus botões: "eu até que também sou filho de Deus!". Com sono, acordei as cinco pra vir fazer o tal curso de Brigada de Incêndios e lá tinha entre os bombeiros instrutores três uma tenente de lábios cor violácia, ela ficava pegando nos cabelos e o Doutor tinha me alertado: “se pegou nos cabelos entra com bola e tudo que é sua Taffarel!!!”. Será? esses Psi são estranhos pra caraca! e a vida não é ciência exata! lógico. Mas nem num caso nem no outro eu conseguia desviar o olhar e a tenente trajava uma aliança quase maior que a farda incluindo as botas longas. Eita, meu Jesus, taí algo que nunca passou sequer pelas minhas fantasias mais fantasiosas: uma tenente dos bombeiros! e casada, vai vendo! porque nossa vida é tão curta? De um personagem de Jorge Amado, livro “Pastores da Noite”, Tenente (vai vendo!) ou Capitão Alguma Coisa: "é impossível transar com todas as mulheres do mundo. Mas deve-se fazer um esforço." Com meus botões eu penso, olhar encantado, vidrado, com sono, na peitulância da soberba que finge dormir se rindo a gosto por dentro: "Muito bem colocado, muito bem Machado, digo, Jorge, meu amado!".
Escrito por Neguleu às 16h45
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Hein?
É: escrever. Que remédio? Rimar com o tédio? Mortal seria Saltar no meio Da avenida vazia? Alma não tem cor.
Escrito por Neguleu às 03h19
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MICHAEL JACKSON: HOMEM OU MULHER? BRANCO OU PRETO? VELHO OU MOÇO?

MICHAEL JACKSON: HOMEM OU MULHER? BRANCO OU PRETO? VELHO OU MOÇO? 
Rubem Fonseca
Contrariando uma "birra" do Autor que "não gosta de falar das coisas que estão na moda", Neguleu publica esta bela crônica que leu no livro "O Romance Morreu", de Rubem Fonseca, e posteriormente, no blog do mesmo donde copiou esta que segue. Há tempos que eu pensava em publicá-la pelas suas virtudes totalmente anti-discriminatórias, o passamento do protagonista só me lembrou dessa minha antiga intenção. Ademais esse blog nem tem intenção de falar mal ou bem de Michael e pra divulgar sua vida, obra, e morte, decididamente o falecido não precisa de um bloguito desse porte! Abraços. Boa leitura e saudável proveito. Rubem Fonseca é injeção na veia! Podem crer! hehe.
Se tomasse um soro da verdade, Michael Jackson diria que é homem ou mulher, negro ou branco? Velho ou moço? É o que questiona Rubem Fonseca em crônica exclusiva para o Portal Literal Na época em que o caso Michael Jackson estava nas manchetes, as pessoas me perguntavam se eu era contra ou a favor dele. Algo como, você é contra ou a favor do aborto? Bem, sou a favor do aborto e do Michael Jackson. E dizia as razões, aos perguntadores. Indagavam ainda porque eu não escrevia isso no site, certamente era mais interessante do que pipoca. (Não me perdoam o texto sobre pipoca). Até agora eu não escrevi no site por um motivo simples: não gosto de falar das coisas que estão na moda. Mas, já que o Michael Jackson caiu no esquecimento, vou falar das minhas razões a favor da sua absolvição no processo em que foi acusado de pedofilia. Bastava ter visto a entrevista do promotor para você ficar contra ele. O cara, depois de demonstrar um animus condenandi que permitia supor sombrias motivações freudianas, afirmou que Michael Jackson era um pedófilo como os inúmeros que existiam e deviam ser condenados. Falso. Não existe entre os inúmeros pedófilos presos ou processados ninguém com o perfil do Michael Jackson. Na verdade não existe entre os seis bilhões que habitam o planeta alguém que se assemelhe ao Michael Jackson. As pessoas se definem, se caracterizam e se limitam conforme o sexo, a etnia, a idade. Michael Jackson rompeu esses limites, isso é que o faz diferente dos outros pedófilos e das outras pessoas em geral. Ele "apaga e destraumatiza não só as fronteiras entre masculino e feminino, entre juventude e velhice, entre branco e preto. Ele internaliza as crises das categorias culturais e ao internalizá-las [...] possibilita uma nova fantasia de transcendência". (Marjorie Garber, Vested Interests: Cross-Dressing and Cultural Anxiety.) Então, responda: Michael Jackson é homem ou mulher? Você sabe? Ele sabe? É preto ou branco? É velho ou moço? Ninguém sabe, se injetarem no Michael Jackson o soro da verdade ele certamente não dirá que é homem, negro, com quarenta e sete anos de idade. (Nasceu no dia 28 de agosto de 1958). Já existe quem diga que ele é um "mutante". As mutações podem ter diversas origens: podem ser ocasionais, tomando parte na pequena probabilidade de erro espontâneo no momento da duplicação do DNA na mitose ou na meiose; podem ser provocados por agentes mutagênicos de origem eletromagnética, química ou biológica; podem ser ainda induzidas em laboratório com o uso intencional destes mesmos agentes sobre organismos vivos. Mutante induzido ou não, um cara desses não tem que ser trancado numa cadeia. Ele é, talvez, uma espécie de precursor. Vamos, pelo menos, entendê-lo.
Escrito por Neguleu às 23h28
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